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A POÉTICA DE JOYCE E A PSICANÁLISE

A relação entre James Joyce e a psicanálise é uma das mais interessantes aproximações entre literatura e o pensamento psicanalítico no século XX. Joyce não foi só um escritor que simplesmente aplicou ou ilustrou conceitos da psicanálise. Ele, ao contrário - especialmente em “Ulisses” e “Finnegans Wake” - colocou problemas para a psicanálise, sobretudo para aquilo que ela entende por linguagem, inconsciente, sujeito e sintoma.

Joyce viveu em uma época profundamente marcada pela emergência da psicanálise. Sigmund Freud já havia publicado “A interpretação dos sonhos” em 1900, e suas ideias sobre o inconsciente, a sexualidade, o desejo e a formação dos sintomas circulavam progressivamente na cultura europeia. Entretanto, não há uma relação direta e sistemática entre Joyce e Freud que permita dizer que a literatura joyceana seja uma aplicação da teoria freudiana. O interesse maior dessa relação aparece posteriormente, quando Jacques Lacan encontra em Joyce um interlocutor privilegiado para pensar questões que ultrapassam a clínica clássica.

É sobretudo no último ensino de Lacan que Joyce ganha uma importância decisiva. Lacan dedica ao escritor o “Seminário 23, O Sinthoma”, realizado em 1975-1976. Nesse momento, Joyce deixa de ser apenas um autor literário para tornar-se uma referência fundamental na elaboração lacaniana do “sinthoma”.

Para compreender essa passagem, é preciso lembrar que Lacan havia construído sua teoria em torno da linguagem e do significante. O inconsciente, segundo sua formulação, é estruturado como uma linguagem. O sujeito aparece dividido pela entrada na ordem simbólica, e o sintoma pode ser compreendido como uma formação que possui uma estrutura significante e que, portanto, pode ser interpretada.

A ordem simbólica para Lacan, é a estrutura da linguagem e das leis sociais que preexistem no indivíduo, moldando sua mente, seus desejos e sua identidade antes mesmo de seu nascimento - aquilo que Durkheim, chama de “fato social”.  Ela forma a base da realidade humana, separando o homem da natureza animal por meio do uso dos significantes. O significante é base material da linguagem, ou seja: o som, a palavra, ou o signo visual, tendo esses, primazia sobre o sentido das coisas. Portanto, é a parte física e perceptível de uma palavra.

Joyce, entretanto, parece levar a linguagem para outro lugar. Em “Finnegans Wake,” por exemplo, as palavras são deformadas, misturadas, condensadas e atravessadas por múltiplas línguas. O sentido não se apresenta de maneira estável. Uma palavra pode conter várias outras; um significante pode criar uma ligação mental simultânea, coligando-se a diferentes línguas e sentidos. A escrita de Joyce produz uma linguagem que frequentemente não se deixa reduzir à comunicação de uma mensagem.

É justamente aí que Lacan encontra algo fundamental para sua teoria. Joyce permite pensar uma relação com a linguagem que não depende exclusivamente da produção de sentido. O significante pode operar também pelo seu som, pela sua materialidade, pela sua letra, pela sua repetição e pelos efeitos de gozo que produz no corpo.

Essa questão conduz Lacan à distinção entre sintoma e sinthoma. No sintoma entendido pela tradição psicanalítica, há algo a decifrar.  O sintoma pode ser tomado como uma formação do inconsciente que possui um sentido recalcado. No sinthoma, porém, Lacan acentua outra dimensão: aquilo que não se reduz à interpretação. O sinthoma é uma maneira singular pela qual o sujeito se mantém articulado diante do Real, do Simbólico e do Imaginário. Ele não é simplesmente algo que precisa desaparecer. Pode ser justamente aquilo que permite ao sujeito sustentar sua existência.

Joyce não escreve apenas para contar histórias. Sua escrita produz um modo particular de existir na linguagem. Lacan formula a hipótese de que Joyce teria encontrado, por meio de sua escrita, uma maneira singular de fazer uma substituição a uma falha na amarração dos registros. Em vez de pensar a escrita apenas como expressão de uma subjetividade previamente constituída, Lacan considera a própria escrita de Joyce como aquilo que participa da construção de sua amarração subjetiva.

Joyce coloca a psicanálise diante de uma linguagem que parece escapar à interpretação tradicional. Em “Finnegans Wake”, o sentido é continuamente produzido e destruído. A palavra deixa de ser apenas veículo de significação e passa a funcionar como objeto sonoro, como matéria, como jogo de letras e como fonte de gozo.

A literatura, nesse ponto, deixa de ocupar uma posição secundária diante da psicanálise. O escritor pode saber, através de sua prática, algo que o psicanalista precisa aprender. Lacan sintetiza essa posição ao afirmar, no Seminário 23, que Joyce é um caso no qual a escrita ocupa uma função fundamental na amarração do sujeito. O escritor não é apenas alguém que produz uma obra; sua obra participa da constituição de uma maneira de existir.

 

 
 
 

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© 2023 por Frederico Spencer.

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