top of page

POESIA - A ARTE DE EROS?

Atualizado: 9 de fev.


A pergunta primordial é: O que é que a poesia quer dizer e não diz abertamente? Por que ela é assim, por que não se entrega por inteira?  Tempos atrás escrevi um outro texto: Quem tem medo da poesia? - que fazia uma pergunta igual a esta. O tempo passa e o enigma se torna ainda mais insondável.

Pesquisando Lacan encontrei a Erotologia que, de modo geral, é o estudo filosófico, literário, cultural e simbólico de Eros - esse deus grego que habita o mundo e as cabeças dos poetas. Deus esse, travestido de desejo, atração e impulso – o amor em dimensão pulsional e criativa. Lacan adentrou na Erotologia estudando a angústia, que é, segundo ele, “o único afeto que diz a verdade”: a verdade do sujeito colocado frente ao desejo do outro. Será que não está aí a resposta que tanto buscamos? Aquilo que a linguagem poética sibila nas entrelinhas e não se entrega, expondo nossa angústia de esbarrar em nossos desejos mais escondidos que tememos, nos colocando onde a linguagem toca nosso corpo.

Ao falar de Eros não estamos falando de pornografia nem de descrição explícita do amor em profusão, mas, de uma reflexão sobre como o desejo é simbolizado, elaborado e significado na cultura humana.

Na filosofia - especialmente no “Banquete” de Platão - Eros aparece como impulso, tensão que se eleva em direção ao belo e ao conhecimento. Nos estudos literários são analisadas questões referentes ao erotismo e sobretudo como ele aparece no plano simbólico da arte e também como diferentes sociedades organizam aquilo que é permitido, interditado, celebrado ou silenciado.

O erotismo enquanto linguagem, está colocado como forma de: sugerir, deslocar, insinuar – uma metáfora do desejo. Lacan também fala sobre: “o desejo como metonímia da falta”. Temos aí, portanto, a metáfora e a metonímia – ferramentas vitais para o poema. A poesia é neste sentido, uma forma privilegiada da Erotologia, porque trabalha com o indizível: o intervalo, os silêncios das entrelinhas - com o não-dito que pulsa no verso.

A poesia e a Erotologia se encontram num território onde o desejo se torna linguagem – não como descrição explícita do sexual - mas como arte da sugestão, do devir que não se apresenta facilmente. Erotologia nesse contexto é o estudo das formas simbólicas do Eros. A poesia é o lugar onde essas formas se manifestam com maior intensidade e brilho, ela não trabalha com o explícito e sim com aquilo que desliza entre as palavras: o sopro, o ritmo, o corte, a pausa. O erotismo na poesia nasce do não-dito, do espaço que sobra entre os versos, da imagem que se insinua sem se deixar capturar. A poesia, portanto, é erotológica por natureza: um exercício de escavar o desejo no interior da língua.

O poema erotiza o leitor não pelo conteúdo sexual, mas pelo modo como a linguagem respira: ritmo, cadência, repetição, suspensão, silêncio – provocando o corpo do leitor - como se ele estivesse sendo tocado pela textura das palavras. O erotismo poético é, antes de tudo, o território onde o afeto é despertado, não como narrativa de atos. Portanto, poesia e Erotologia se encontram no mesmo lugar: o lugar onde o desejo vira forma, onde a linguagem toca o corpo sem ser explícita, onde o sentido se abre em mistério.

Nas palavras de Lacan: “a linguagem é uma aventura do corpo.” Eis aí onde talvez repouse o temor pela poesia e é exatamente aí onde ela nos desperta, onde nos faz pulsar diante de nossos desejos, afastando a angústia.

 
 
 

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

Entre em contato comigo através deste formulário.

Obrigado! Mensagem enviada.
  • Facebook
  • Instagram

© 2023 por Frederico Spencer.

bottom of page