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POESIA - A ARTE DE EROS?


A pergunta primordial é: O que é que a poesia quer dizer e não diz abertamente? Por que ela é assim, por que não se entrega por inteira?  Tempos atrás escrevi um outro texto: Quem tem medo da poesia? - que fazia uma pergunta igual a esta. O tempo passa e o enigma se torna ainda mais insondável.

Pesquisando Lacan encontrei a Erotologia que, de modo geral, é o estudo filosófico, literário, cultural e simbólico de Eros - esse deus grego que habita o mundo e as cabeças dos poetas. Deus esse, travestido de desejo, atração e impulso – o amor em dimensão pulsional e criativa. Lacan adentrou na Erotologia estudando a angústia, que é, segundo ele, “o único afeto que diz a verdade”: a verdade do sujeito colocado frente ao desejo do outro.

Ao falar de Eros não estamos falando de pornografia nem de descrição explícita do amor em profusão, mas, de uma reflexão sobre como o desejo é simbolizado, elaborado e significado na cultura humana.

Na filosofia - especialmente no “Banquete” de Platão - Eros aparece como impulso, tensão que se eleva em direção ao belo e ao conhecimento. Nos estudos literários são analisadas questões referentes ao erotismo e sobretudo como ele aparece no plano simbólico da arte e também como diferentes sociedades organizam aquilo que é permitido, interditado, celebrado ou silenciado.

O erotismo enquanto linguagem, está colocado como forma de: sugerir, deslocar, insinuar – uma metáfora do desejo. Lacan também fala sobre: “o desejo como metonímia da falta”. Temos aí, portanto, a metáfora e a metonímia – ferramentas vitais para o poema. A poesia é neste sentido, uma forma privilegiada da Erotologia, porque trabalha com o indizível: o intervalo, os silêncios das entrelinhas - com o não-dito que pulsa no verso.

A poesia e a Erotologia se encontram num território onde o desejo se torna linguagem – não como descrição explícita do sexual - mas como arte da sugestão, do devir que não se apresenta facilmente. Erotologia nesse contexto é o estudo das formas simbólicas do Eros. A poesia é o lugar onde essas formas se manifestam com maior intensidade e brilho, ela não trabalha com o explícito e sim com aquilo que desliza entre as palavras: o sopro, o ritmo, o corte, a pausa. O erotismo na poesia nasce do não-dito, do espaço que sobra entre os versos, da imagem que se insinua sem se deixar capturar. A poesia, portanto, é erotológica por natureza: um exercício de escavar o desejo no interior da língua.

O poema erotiza o leitor não pelo conteúdo sexual, mas pelo modo como a linguagem respira: ritmo, cadência, repetição, suspensão, silêncio – provocando o corpo do leitor - como se ele estivesse sendo tocado pela textura das palavras. O erotismo poético é, antes de tudo, o território onde o afeto é despertado, não como narrativa de atos. Portanto, poesia e Erotologia se encontram no mesmo lugar: o lugar onde o desejo vira forma, onde a linguagem toca o corpo sem ser explícita, onde o sentido se abre em mistério.

Nas palavras de Lacan: “a linguagem é uma aventura do corpo.” Eis aí onde talvez repouse o temor pela poesia e é exatamente aí onde ela nos desperta, onde nos faz pulsar diante de nossos desejos, afastando a angústia.

 
 
 

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© 2023 por Frederico Spencer.

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