POESIA E A ESTRUTURA DO SER
- FREDERICO SPENCER

- 20 de jan.
- 3 min de leitura

A relação entre poesia e psicanálise não se estabelece apenas no nível da palavra, mas também no modo de funcionamento da linguagem, penso eu, porque ambas operam a partir de um ponto de fratura do sentido, onde a palavra deixa de ser mero veículo de representação para tornar-se ato. Nesse sentido, a poesia não é simplesmente ornamento do discurso, assim como a interpretação analítica não é explicação do sintoma: ambas produzem efeitos ao incidir sobre a estrutura do ser.
Na poesia, a metáfora rompe a cadeia habitual do sentido da palavra ao instaurar um novo campo simbólico. Ao deslocar o sentido de uma palavra de seu uso cotidiano, ela não apenas amplia o significado, mas reconfigura a leitura e sua escuta. Trata-se, portanto, de uma ação que amarra o ato da criação poética. A metáfora não representa um “real” prévio do símbolo; ela o desloca, fazendo emergir uma pluralidade de sentidos que enriquece o verso. Nesse sentido, a metáfora deve ser compreendida como um ato de linguagem, e não como um recurso estilístico da poética.
Essa concepção encontra ressonância direta na psicanálise de orientação lacaniana. A condensação, tal como formulada por Sigmund Freud, designa o processo pelo qual múltiplas representações inconscientes se articulam em um único elemento significante. Em Lacan, essa operação é relida a partir da estrutura da linguagem, indicando que não é o sentido que organiza o inconsciente, mas o significante. A condensação não esclarece - ela marca. Seu efeito não é de compreensão, mas de incidência sobre o sujeito.
A partir da linguística estrutural de Roman Jakobson, Lacan identifica na metáfora e na metonímia os dois eixos fundamentais do funcionamento da linguagem — e, por consequência, do inconsciente. A metáfora opera por substituição e condensação; a metonímia, por deslocamento e contiguidade. Esses mecanismos, portanto, não se restringem só ao campo literário, mas constituem uma lógica do desejo. O inconsciente, como afirma Lacan, é estruturado como uma linguagem, e o significante é seu operador primordial.
Nesse ponto, a aproximação entre poesia e clínica torna-se ainda mais conjunta. A interpretação analítica, não visa simplesmente produzir um sentido adicional, mas produzir um efeito na cadeia significante. Ela interrompe a continuidade do discurso, desestabiliza a significação formal do discurso e cria as condições para que algo do “real” se manifeste. O poema opera de modo idêntico. Um verso não resolve questionamentos, ele o intensifica. Ao sublimar o fechamento do sentido da palavra, o poema introduz uma descontinuidade que convoca o leitor a uma posição subjetiva diferente do seu cotidiano.
Dessa forma, podemos afirmar que tanto a poesia quanto a psicanálise trabalham na borda do “real”. Em Lacan, o “real” não se confunde com a realidade, mas designa aquilo que resiste à simbolização, o impossível de ser plenamente dito. O “real” não se apresenta como conteúdo, mas como impasse, repetição ou furo no saber. A poesia, ao tensionar a linguagem até seus limites, não busca capturar o “real”, mas circunscrevê-lo. Ela desenha sua borda, fazendo da falha, do silêncio e do estranhamento elementos constitutivos da experiência poética.
Nesse sentido, o poema pode ser pensado como uma escrita do impossível. Assim como o sintoma na clínica, ele não se reduz a um significado oculto a ser decifrado, mas constitui uma solução singular para sustentar a relação do sujeito com o real. A escrita poética pode então ser lida como um “sinthoma”, no sentido lacaniano: uma amarração entre linguagem e gozo, que não elimina o impasse estrutural, mas o torna habitável.
Dessa maneira, acho que, poesia e psicanálise se tocam não por compartilharem conteúdos, mas por operarem a linguagem como ato. Ambas recusam a ilusão de totalização do sentido e sustentam uma ética do não-todo, na qual o real não é superado, mas bordejado. Nesse ponto, o poeta e o analista se aproximam: ambos trabalham onde a palavra falha — e é justamente aí que ela passa a operar.






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