Poesia e Psicanálise: onde se tocam
- FREDERICO SPENCER

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Atualizado: há 4 horas

Por Frederico Spencer
Na poesia, a metáfora rompe a cadeia habitual do sentido da palavra para instaurar um novo campo simbólico, requalificando-a. Nesse processo, ela não apenas representa algo: dá suporte ao próprio ato de criação do poeta. Ao ressignificar uma palavra, a metáfora desloca o campo do real e faz emergir a multiplicidade de sentidos de cada signo, agregando densidade ao verso. Nesse sentido, a metáfora é um ato de linguagem — não um mero ornamento destinado a embelezar o texto, mas uma ação que se realiza no próprio gesto da escrita.
Na psicanálise de orientação lacaniana, a condensação refere-se ao processo pelo qual diversas representações, ideias ou cadeias de pensamento inconsciente se reúnem e se deixam representar por um único elemento. Trata-se de uma operação que permite a palavra tocar o real, fazendo com que algo do indizível se inscreva na linguagem.
Metáfora e metonímia, são mais do que figuras de linguagem no campo da poética: trata-se de modos fundamentais de funcionamento da linguagem e do desejo. A partir da linguística de Jakobson, Lacan identifica nessas operações os mecanismos que estruturam o inconsciente — a condensação e o deslocamento, descritos por Freud. São, assim, dois modos de operação do significante.
Para Lacan, o significante é o elemento primordial do inconsciente: aquilo que representa o sujeito para outro significante. Na poesia, essa lógica se manifesta de modo privilegiado pela metonímia, que opera como o deslizamento incessante de um significante a outro, fazendo do sentido algo sempre em movimento, nunca plenamente fixável.
É nesse ponto que poesia e psicanálise se tocam de maneira mais radical: ambas trabalham com o furo no saber, com aquilo que não se deixa totalizar pelo sentido. O poema, assim como a interpretação analítica, não visa esclarecer plenamente, mas produzir um efeito — um abalo, um tropeço na linguagem que faz emergir algo do sujeito. Tanto na escrita poética quanto na experiência analítica, não se trata de dizer tudo, mas de dizer de tal modo que algo do real seja circunscrito, bordejado, sustentado pelo significante. O poeta, como o analista, opera nesse limite: onde a linguagem falha, mas ainda assim insiste.






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